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Ao subir pelo estradão aberto desde a «Parinheira» ao «Santinho», (...) deparamos à direita, quase a chegar ao cimo, com uma abertura no meio de grandes rochedos que dá acesso a uma pequena gruta. É a «Boca da Serpe», que significa, «boca da serpente». O nome terá sido dado àquela abertura nos rochedos por parecer realmente a boca duma serpente, ou estará relacionada com os ritos de fertilidade em que antigamente se adoravam as serpentes e se lhes atribuíam poderes de fecundidade quer em relação ao homem, quer aos animais e plantas?
A opinião mais credível sobre este «monumento» é que se trata de uma cisterna que era destinada a abastecer, de água, o Castro, quando era habitado. Dentro tem duas aberturas e, quando eu era criança ainda era possível, com uma simples tocha feita com uma pinha a arder enfiada num pau, descer pela abertura do lado direito, rastejando, até à água (...). Mas já nessa altura o poço estava cheio de pedras quase até ao nível da água, devido a haver o costume de as crianças, que andavam com os gados a pastar por aquelas redondezas, se entreterem atirando pedras a rolar por aquele túnel abaixo, para ouvirem o barulho das pedras a bater na água. Outra opinião, é que aqueles buracos tinham sido feitos pelos Romanos para extrair ouro. A abertura do lado esquerdo poderá, realmente, ter sido feita para extrair algo de valor, não no tempo dos romanos, mas em tempo bem mais recente, talvez quando se extraiu, sobretudo na «Parinheira», o volfrâmio para fazer armas para a 2ª Guerra Mundial (...). Interessante também é o musgo sempre verdejante dentro da «Boca da Serpe» com a sua cor de um verde claro muito brilhante, devido ao reflexo da luz do sol dentro da gruta. (...)
Ao chegarmos ao cimo, se voltarmos à esquerda e subirmos alguns grandes rochedos, deparamos com um bom Miradouro para a (...) freguesia, (...) e todas as freguesias vizinhas dos lados Norte, Este e Sudeste.
Se depois subirmos para a colina do lado oeste, deparamos com a «Pegadinha», um penedo em que sobressai um buraco em forma de pegada, bem como 4 pequenos orifícios, alinhados 2 a 2. (...) Trata-se de um penedo que servia de soleira de uma porta de entrada para uma casa antiga, não sendo a «pegada» mais do que o buraco onde rolava o «eixo» da porta e os buracos, o sítio onde entravam os ferrolhos para trancar a porta.
Se subirmos mais um pouco, até um grande penedo sobre o qual existem buracos formados pela força dos elementos da natureza (...) e a base de uma cruz actualmente desaparecida, deparamos com um novo Miradouro, agora com vistas também para oeste, vislumbrando-se ao longe a linda foz do rio Lima e o Monte de Santa Luzia. Este é o ponto mais alto do Monte Santinho, a 268 metros acima do nível da água do mar.
Se continuarmos o nosso passeio na direcção sul, deparamos com o Castro (...), uma pequena cidade fortificada, notando-se ainda muitos aglomerados de pedras pertencentes às casas romanas e, em alguns sítios, os contornos das paredes das casas, umas redondas, outras quadradas. Podem ainda distinguir-se as Muralhas do Castro: do lado Este, porque protegidas naturalmente pelos grandes rochedos colocados em encosta íngreme, só havia uma muralha que seguia a linha que marcava o fim da encosta (...) e o início do Castro; mas dos outros lados, com mais fácil acesso para os guerreiros inimigos, havia 3 muralhas cujos alicerces ainda são visíveis. Entre cada uma das muralhas havia espaço bastante para lutar e encurralar os inimigos antes de eles conseguirem chegar à cidade.
Se formos um pouco para Este, para o lado de Vila Franca, encontramos uma Nascente de água, cujo nome desconheço, mas onde, em crianças, íamos beber quando apascentávamos os gados. É uma fonte de água natural, abundante, que corria nesses tempos, pelo monte abaixo sem qualquer aproveitamento, mas que me consta que foi explorada e utilizada pela freguesia de Vila Franca, a quem pertence.
Se voltarmos para Oeste e continuarmos mais para Sul, encontramos um grande penedo, encimado por um marco geodésico que constitui o Miradouro, de onde se pode ver para mais longe, em todo o Monte. Em dias muito claros, é possível avistar dali a cúpula do Santuário da Senhora do Sameiro, em Braga. É também nesse penedo que se dá a junção dos limites de 4 freguesias: Subportela, Vila Franca, Vila de Punhe e Mujães.
Se continuarmos para Sul, começamos a descer em direcção a Vila de Punhe e encontramos outro penedo bastante alto que serve também de Miradouro para sul e oeste.
Voltando um pouco para trás, podemos voltar para oeste e começar a descer o Monte em direcção à parte norte do lugar do Monte, por um estradão em terra batida, bastante íngreme em muitos sítios, e que nos leva, já relativamente perto das primeiras casas, a uma grande formação rochosa que dá pelo nome de «Penedo-Casa do João Sousa». Trata-se, como o nome indica, de um penedo que a natureza criou, que parece uma casa em miniatura e está assente em outro grande penedo que constitui o chão dessa «casa». A porta é bastante baixa e difícil de entrar, mas dentro há altura suficiente para estar sentado. (...) Por dentro, o Penedo-Casa é totalmente oco, cheio de cavidades côncavas formadas pela natureza. Tem uma janela também natural, que está sempre aberta, é claro. O nome «do João Sousa» perde-se na história, tendo sido provavelmente o dono da bouça em que se encontra este engraçado penedo. (...)
Voltando para trás, novamente em direcção ao alto do Monte (isto para terminarmos no mesmo sítio onde começámos), deparamos com dois outros grandes rochedos, um em cima do outro, tendo, o de cima, muitas cavidades côncavas, formadas pela chuva e pelo vento e onde se deposita a água da chuva. É o chamado «Penedo do Rato». Era aí em cima que jogávamos às cartas em criança, constituindo esse sítio um bom Miradouro sobre a planície para vigiar os gados e não permitir que se afastassem demasiado. Actualmente, com alta vegetação existente à volta, as concavidades existentes em cima do penedo estão também cheias de terra e nelas crescem já pequenos pinheiros.
Continuando a nossa caminhada a subir o Monte, seguimos na direcção Sudoeste e atravessamos o riacho de Inverno ali perto. Depois começamos a subir a íngreme encosta (...) e, naquela parte nordeste do Monte, podemos ver, sobressaindo daquele conjunto rochoso, diversos penedos não tão grandes como os descritos anteriormente, mas que, vistos de longe, nos fazem lembrar várias figuras consoante a imaginação de cada um.
Continuando a subir com bastante esforço em direcção a sudoeste, a pouco mais de meio da encosta, encontramos alguns salgueiros que nos indicam estarmos na «Fonte da Laje». (...) É uma nascente de água que sai na fenda de um rochedo, de uma laje, advindo-lhe daí o nome. Como curiosidade, registe-se que esta fonte mantém mais ou menos o mesmo caudal de água (reduzido) durante todo o ano. (...)
Voltando agora para oeste, numa subida menos íngreme, reparamos como o Monte forma agora uma espécie de garganta e que estamos a subir pela margem direita dessa garganta. Quando essa garganta desanda um pouco para sul, aparece-nos à direita, na encosta, um interessante penedo com uma abertura que de frente tem a forma de um coração. Esse penedo é oco por dentro e está assente em cima de outro mais recuado, permitindo que uma pessoa se ponha de pé, a partir do chão, olhando pela janela natural em forma de coração. Chama-se a este penedo o «Penedo do Galo», advindo-lhe o nome da forma de uma cabeça de galo que o penedo tem para quem o está a ver do lado sul, parecendo a janela ser o olho esquerdo do galo. Há a tradição de a gente nova se pôr à janela a tentar imitar o cantar do galo.
Continuando a subir por essa garganta, cuja zona do lado esquerdo de quem sobe tem o nome de «Taquinhas» (ou «Estaquinhas»?), chegamos novamente ao estradão em terra e encontramos um penedo encimando o declive da encosta no seu ponto mais acentuado, fazendo daquele sítio um bom lugar para os caçadores esperarem o trabalho dos cães e verem os coelhos a fugir... Este penedo é chamado «Penedo do Sol», talvez porque é o sítio do Castro onde mais tempo (...) bate o sol. Podemos pôr a hipótese de ter sido aí o lugar do relógio do sol para marcar o tempo para as gentes que habitavam o Castro. (...)”.

Bibliografia: 
Revista “Festas em Honra de S. João Novo e S. Bento”, Junho de 1999.
P. Torres Lima